“Se andarmos apenas por caminhos já traçados, chegaremos apenas onde os outros chegaram”

Tem uma frase atribuída a Alexandre Bell: “Se andarmos apenas por caminhos já traçados, chegaremos apenas onde os outros chegaram” que tem muito a ver com o momento atual da jornada de transformação digital e o papel do CIO. A digitalização da sociedade está mudando profundamente o contexto estratégico, alterando a estrutura da competição, a condução dos negócios e eliminando a fronteira entre os setores de indústria. Baixas barreiras de entrada que permitem novos entrantes, sejam startups ou empresas de outros setores, apareceram repentinamente, ameaçando a ordem natural das coisas. A natureza “plug and play” (como blocos Lego) dos ativos digitais cria novas cadeias de valor que desagregam as cadeias estabelecidas, forjando novos competidores. Um exemplo típico de “plug and play” é a Amazon que oferece serviços de streaming de vídeos, logística, lojas virtuais e recursos computacionais (a AWS). Para usar, basta plugar estes serviços em sua própria cadeia de valor. Diante deste cenário, é inevitável que a área de TI esteja caminhando em direção a um novo mundo, onde, com algumas exceções, não haverá mais data centers, suporte a desktops, plataformas de e-mail e outras coisas que são costumeiramente mantidas hoje dentro das empresas.

O que as empresas e as áreas de TI devem fazer?

A opção de esperar para ver talvez seja lenta demais e a empresa e/ou o setor de TI correrão o risco de perder seu espaço e relevância. O contexto das mudanças em TI não se limita a apenas colocar sua infraestrutura em cloud, mas envolve muito mais que isso. Também o desenvolvimento de sistemas, tão protegido por processos e métodos que se consolidaram por mais de vinte anos de “best practices” também está sob pressão, com novas tecnologias surgindo como plataformas low-code. O mesmo acontece com o próprio modelo de organizar e pensar a missão e o papel da TI.

O principal desafio é mudar a maneira de pensar, o paradigma ou modelo mental, que construímos ao longo de décadas, para montar o que constitui a TI hoje. Se não aceitarmos que as regras que moldaram o atual modelo da TI está sofrendo mudanças drásticas, vamos perder o tempo do processo.

Vamos analisar o contexto. Muitas empresas estão focadas em modernizar o seu portfólio, consolidando aplicações, etc. Mas, questiono, será que não estão modernizando suas carruagens quando um novo veículo, o automóvel já começou a rodar pelas ruas? Que adianta modernizar os processos de fabricação de filmes químicos quando a fotografia se torna digital? Claro que é necessário para o CIO manter o dia a dia, afinal muitos dos sistemas legados é que garantem o funcionamento da empresa, mas esperar arrumar a casa para depois olhar a transformação digital significa, muito provavelmente, que ele vai chegar na estação depois que o trem saiu.

O papel da TI na transformação digital

É interessante observar que quando abordamos o tema de transformação digital, ainda muitos gestores de TI colocam barreiras. Não é surpresa, uma vez que, ironicamente, a TI aparece como uma das funções mais resistentes às mudanças dentro das organizações. A explicação talvez seja que muitas funções em TI são dependentes do sucesso de determinadas tecnologias e frameworks, para os quais os profissionais se tornaram experts. Sair desta zona de conforto e entrar em um conjunto de novas tecnologias, novas práticas e novos modelos organizacionais causa, naturalmente, reações contrárias. Como são profissionais talentosos, suas argumentações são sólidas e geralmente suportadas por seus pares.

Na minha opinião, aceitar e liderar estas mudanças na TI das empresas é que vai fazer a diferença entre os CIOs. A TI sempre foi doutrinada a evitar riscos e manter a operação totalmente invisível aos usuários, reduzindo custos e atendo-se à práticas estabelecidas há muitos anos. Romper com este modelo mental não é simples. Ser inovador e “early adopter” não faz parte de sua cultura e mindset.

Os desafios são inúmeros. O primeiro é a capacitação. Será que os profissionais das áreas de TI estão capacitados, por exemplo, a trabalhar em um ambiente de cloud, desenvolvendo apps móveis e contextuais, utilizando práticas de entrega contínua? Muitas vezes, as próprias empresas não consideram TI como diferenciadora, apenas a enxergam como operacional. Assim, ainda é comum vermos recrutamento de profissionais restringindo-se às capacitações já estabelecidas. Como inovar se não se busca novas capacitações, necessárias para uma nova TI?

Modelo operacional de TI

O modelo operacional de TI é um outro aspecto importante. De maneira geral encontramos em muitas empresas uma TI orientada a custos, com papel operacional, de suporte aos negócios, e tendo este custo avaliado em relação ao percentual do faturamento. Quando a receita da empresa cresce, TI pode aumentar seu budget. Quando a empresa reduz sua receita, o budget de TI também é cortado. Esse modelo de “fazer mais com menos”, sufoca a capacidade dos CIOs de inovarem. Eles ficam sob constante pressão para manter o dia a dia com menos custos e com poucas chances de conseguir budgets para inovar. Pior quando subordinados ao CFO, geralmente mais preocupados com lucratividade e redução de custos à curto prazo e muito menos com inovação. Não é vocação da maioria dos CFOs serem empreendedores e inovadores. Mas, a TI poderia ser visto de outra forma, como uma função alavancadora de novas receitas. Por que a TI não pode gerar oportunidades de criar novas fontes de receitas para a empresa?

Também precisa estar entranhada no negócio. Uma prova de como muitas empresas mantém sua TI afastada do negócio é que é muito raro vermos CIOs apresentando palestras em eventos específicos de indústria. Na maioria das vezes, o que vemos são CIOS praticamente só participando de eventos de tecnologia, sejam dos fornecedores ou de analistas de indústria. Poucas vezes os encontramos em eventos dos próprios setores de indústria do qual fazem parte.

Um outro aspecto é a velocidade de resposta. Uma TI voltada ao negócio, gerando receita tem que ser oportunista, o que vai de encontro aos processos atuais, que demandam longa maturação, da solicitação pelo usuário à implementação operacional. Ainda vemos muitas práticas e processos de TI rígidos e ancorados em modelos voltados a um contexto onde velocidade não é a variável mais importante. Estudos mostram que empresas que desenvolvem sistemas mais rápido tendem a apresentar resultados de negócios bem superiores às mais lentas. O que se busca é medir resposta em dias e talvez em semanas, mas não mais em meses. Para atuar de forma oportunista, criando novos engajamentos com clientes, é preciso atuar no tempo correto. Um atraso de semanas (meses, nem pensar) e lá se vai a janela de oportunidade. TI deve ser por natureza ágil e veloz, em todos os aspectos.

A TI tem que se reinventar

Infelizmente vemos ainda muitas empresas com uma TI que parece a mesma, em sua tecnologia, processos e “best practices” de dez anos atrás. O mundo de negócios hoje não é o mesmo de dez anos atrás e a TI não pode, portanto, ser a mesma de dez anos atrás. Simples assim! O CIO pode e deve ser o ponto focal da jornada de transformações digitais. Para isso deve compreender as mudanças que já estão ocorrendo e reinventar sua área e a própria função do CIO. Criar nova maneira de pensar a TI na empresa e prover novos serviços e produtos. Ser veloz, ágil e inovadora. Infelizmente, muitas vezes, o maior obstáculo da inovação na TI é a própria TI.

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