Era uma vez um emprego e uma empresa

Era uma vez um emprego e uma empresa

Calma, este não é mais um artigo sobre ‘work from home’. Pensando bem, dedicar tanta atenção a esse assunto seria um pouco autocentrado da nossa parte. Diante de tantos problemas graves e vários setores da economia tão abalados, não dá para continuar falando sobre escritórios. Além disso, a questão do local de trabalho é um aspecto importante para apenas a uma pequena parte da população mundial. Este artigo vai além e trata das consequências da inevitável dispersão geográfica da força de trabalho.

Vou discorrer sobre algumas tendências e fenômenos que já existiam. A pandemia e o consequente confinamento compulsório proporcionaram um imenso laboratório e precipitaram discussões previstas para daqui a cinco ou dez anos. O gostinho do trabalho virtual permitiu que muitos empresários e executivos acelerassem transformações na forma de trabalhar. Entre coisas boas e ruins, as consequências do fatal aumento do trabalho em casa é uma caixa de Pandora, cheia de surpresas, potencializando uma série de mudanças nas organizações tradicionais, com um abalo profundo no já combalido vínculo empregatício.

Comecemos pelo lado mais evidente, através de uma história fictícia. Falo do José, assessor de tesouraria. Pela primeira vez, o Zé teve o gostinho de pegar o notebook corporativo e trabalhar em casa. Economizou 3 horas diárias de fretado entre São Paulo e São Bernardo. Ele adorou a experiência. Tudo o que precisava para trabalhar chegou dentro do recém instalado SAP S/4 HANA da companhia, uma dúzia de e-mails e mais umas três planilhas Excel. O trabalho na quarentena rendeu muito. O Zé percebeu que pode continuar assim para sempre. Marcos, seu chefe, também.

O satisfeitíssimo Marcos fez um balanço da quarentena e teve duas ideias geniais – na sua própria avaliação – uma de curto prazo e outra de médio prazo. A primeira é substituir o Zé pela Isabel, que mora em Itabuna e ganha metade do salário do primeiro. Depois, ele vai trocá-la por três robôs da UIPath, consagrado fornecedor de soluções RPA. Enquanto isso, o Carlos, o chefe do Marcos, também pensou na experiência fascinante da pandemia. A sua ideia é eliminar o cargo do Marcos e também dos seus pares, Manoel e Joana. Afinal, se é para fazer um follow-up geral pelo Zoom, então o próprio Carlos pode fazê-lo. Além do mais, lá na frente, todos os robôs serão geridos por um novo software.

Exagero? A pandemia empurrou todos nós para um cenário de ação. Aquilo que sempre despertou hesitação, saiu do campo das possibilidades e foi implementado na marra. O exemplo acima acontece num cenário nacional. No âmbito global, teremos alternativas na Índia, China e até a África, que oferecem vantagens diante dos rincões do Brasil.

Se você acha que o exemplo acima é relevante, saiba que ainda tem mais. Falamos de substituição e eliminação de empregados. Agora, vamos abordar a própria essência das empresas. Longe de qualquer ambição de creditar todas as eventuais crueldades do capitalismo à pandemia, quero chamar a atenção do leitor para a convergência de tendências.

Empresas 100% virtuais não são novidades. Conheço inúmeras aqui mesmo no Brasil. Várias delas existem em torno de projetos ou produtos específicos. Às vezes, são prestadores de serviços especializados. Algo muito viável para pequenos e médios. Funciona bem, geralmente em torno dos fundadores, proprietários e do seu ciclo de confiança.

Com as grandes corporações, complexas e profissionalizadas, é uma outra história. Em inúmeras conversas no LinkedIn, questionei a sua adesão ao 100% remoto, defendendo apenas uma maior flexibilidade, ou, como defendem alguns ‘experts’, modelos híbridos.

Espera-se de uma empresa um propósito e a busca da perenidade. Para isso, ela deve semear e formar lideranças, construir relações de confiança e inovar, processos que dependem de uma cultura organizacional, das pessoas e do seu relacionamento, que dependem, por sua vez, de interações não exclusivamente virtuais.

Como disse o Satya Nadella, CEO da Microsoft, abrir mão do escritório seria queimar parte do capital social (não no sentido contábil) desenvolvido pelas organizações. Por que a Apple investiu 5 bilhões de dólares na sua sede de Cupertino? Seriam eles idiotas?

Existe uma conhecida prática de enxugamento empresarial. Adotada em ritmos diferentes, mas com o objetivo comum de guardar um núcleo duro funcional ou o ‘core’, aquela estrutura mínima que garante o funcionamento e o controle dos processos essenciais do negócio. Num futuro não muito distante, as empresas serviriam-se de uma miríade de consultores, startups, autônomos, temporários e outras empresas menores. Ao acrescentar os próprios funcionários a esta constelação, não sobra muita coisa no minúsculo core.  Devagar com o andor!

A atomização da força de trabalho fortalece a opção pelas organizações minimalistas, meras entidades jurídicas, que preservam o ganho de escala econômico, focam na eficiência e servem-se de um ecossistema profissional. Além da óbvia redução do contingente de ‘carteira assinada’, tema desta reflexão, resta ainda a discussão sobre a própria essência das empresas, pois tamanha dispersão abalaria a construção de redes de confiança e comprometeria a capacidade de inovar, entre outras.

A pandemia foi um fantástico laboratório. Mesmo que o assunto trabalho em casa seja a pontinha do iceberg no mundo dos negócios, ele catalisa mudanças e tendências que já existiam, convergindo para a redução de empregos locais pela exportação dos mesmos, robotização e downsizing corporativo. Enfim, a questão não é saber se iremos trabalhar em casa ou no escritório, mas se haverá emprego.

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