Não são só os outros. TI também deve fazer sua própria transformação digital!

Não são só os outros. TI também deve fazer sua própria transformação digital!

As empresas estão se tornando, em maior ou menor grau, empresas de tecnologia. Toda a sociedade e consequentemente todas as indústrias estão diante de oportunidades e ameaças. As ameaças são empresas ou setores de indústria simplesmente desaparecerem. O digital é a nova fronteira. O estudo da BCG, “The Next Frontier in Digital and AI Transformations” mostra nitidamente os desafios e oportunidades que estão diante de todas, mas todas mesmo, organizações.

É fundamental que os executivos compreendam que as mudanças que estão ocorrendo acontecem em ritmo exponencial e não linear. Os próprios modelos de negócio, hoje consolidados por décadas de sucesso, estão sendo colocados em cheque. Assim, repensar o propósito e criar novos modelos de negócio, mesmo que às custas de canibalização do atual, passam a ser requisitos de sobrevivência. O status quo deve ser questionado e para isso não é suficiente olhar apenas para seus concorrentes, mas para todos os lados. A disrupção provavelmente não virá de nenhum concorrente direto, mas de uma startup ou empresa de outro setor.

No cerne deste movimento está a transformação digital, que é o primeiro passo para a transformação dos negócios. O uso criativo da tecnologia passa a ser um fator não apenas de competitividade, mas de sobrevivência, transformando padrões de custos e a eficiência, reinventando a experiência do usuário e permitindo crescimento exponencial. Uma estratégia digital é hoje intrínseca à toda e qualquer estratégia de negócios.

As organizações estão em diferente grau de maturidade quanto à transformação digital. Estas diferenças se acentuam pelas diferentes demandas sobre setores diversos e também pela cultura predominante em cada organização. Se olharmos as empresas por três ângulos, como potencial de digitalização de seus ativos (uma empresa fabricante de produtos se transformando em empresas de serviços digitais), intensidade de uso das tecnologias digitais na relação com clientes e fornecedores, o grau de disseminação das tecnologias digitais pelos seus próprios funcionários, vemos diferenças significativas entre as empresas. Portanto, o que deu certo em uma empresa não necessariamente dará certo em outra.

Não se espera que as empresas se transformem de um dia para o outro em um Facebook ou Alphabet. Mas pelo menos deveriam olhar as bem-sucedidas empresas de forte viés tecnológico, como Facebook, Amazon, Alibaba, Google, Airbnb, Uber e outras tantas, como referência e tentar descobrir o que pode ser aplicável aos seus negócios. O Facebook é um case muito instigante de uma visão muito diferente do planejamento estratégico das empresas tradicionais, porque na verdade Mark, seu fundador e CEO, nem precisou “pensar fora da caixa”. Antes do FB ele nunca tinha gerenciado uma empresa. Aliás, ele nunca tinha sequer trabalhando em uma. Portanto, não tinha nem caixa para usar como referência. O movimento que o Google fez ao criar o Alphabet teve forte viés de incentivar inovação. É um case que merece ser lido por todos CEOs e CIOs. A ideia básica é a empresa permitir que as áreas de negócio tenham autonomia para criar iniciativas digitais, mas com guidelines e princípios que garantam consistência e compatibilidade com os objetivos estratégicos da corporação.

Mudar não é fácil. Vemos muitas corporações patinando em suas mudanças estratégicas. O caso da GE é bem emblemático e pode ser uma boa fonte de aprendizado. O artigo “What We Can Learn from GE and Why Digital Transformations Fail” é um exemplo de como as coisas podem dar errado, apesar da vontade e altos investimentos.

Diante deste desafio, muitas vezes, pela lentidão em TI agir de forma inovadora, as áreas de negócio começam por si mesmas, a desenvolver suas iniciativas digitais, disponibilizando novos serviços e proporcionando novas experiências aos clientes. Tudo isso sem conhecimento da TI. Por isso recomendo enfaticamente que TI faça antes de todos, sua própria transformação digital. Por incrível que pareça muitas áreas de TI não “pensam digital”. Se quiserem ter papel relevante na transformação digital de suas empresas, tem que se transformarem primeiro.

Qual deve ser o papel da TI e do CIO neste movimento? Estão diante de uma decisão fundamental: liderar e se tornarem relevantes no processo de transformação dos negócios pela transformação digital, ou manter-se na operação básica, sendo, irreparavelmente, deixado em segundo plano.

A TI corporativa não pode ficar inerte. Tem que assumir um papel mais proativo e buscar inovação. Mas a questão é: ”como liderar inovação, e em que grau TI deve se envolver nas iniciativas digitais da empresa? ”. Centralizar a inovação não é um bom caminho, pois gera um gargalo. TI não tem braços e cabeças para ser o “inovador único”. Por outro lado, ignorar as inovações que surgem a cada momento pode levar a uma futura situação caótica, quando integrações entre novas tecnologias e sistemas corporativos começarem a despontar. Uma provável resposta será achar o caminho do meio, onde TI define “guidelines” que minimizem a complexidade de integração entre as diversas inovações e os sistemas corporativos. Uma frase de David Heppenstall, CIO global, De Beers Group of Companies, ilustra bem este contexto: “Trying to keep complete control of anything digital will fail. All parts of the business have great ideas. It’s about building the right relationships and becoming their trusted advisor. Then they will come to you to plan and implement those great ideas. You’ve got to be open, agile and flexible”.

Para facilitar o processo de definir o nível de envolvimento da TI nas inovações, podemos analisar duas dimensões: o nível de maturidade da tecnologia e o seu grau de integração com os sistemas corporativos, reino da TI atual. Assim chegamos aos seguintes quadrantes:

a) Alta integração e tecnologia madura: TI deve ser o líder da implementação, no rollout corporativo. Exemplos são Data Lakes, DevOps e entrega contínua, Cloud, etc.

b) Alta integração, mas tecnologia ainda imatura e em fase de projetos piloto. TI deve atuar como advisor, para as questões de integração. Falamos aqui de Blockchain, IoT, Machine Learning.

c) Baixa integração e tecnologia já amadurecendo. A liderança deve estar com as áreas de negócio, com apoio de TI. Exemplos típicos são drones e impressoras 3D.

d) Baixa integração e tecnologias imaturas. TI pode exercer o papel de instigador para sua experimentação pelas áreas de negócio. Exemplo são Realidade Virtual e a Realidade Aumentada.

A estratégia digital da empresa não é uma estratégia de TI, mas da corporação como um todo. É papel e reponsabilidade do CIO e do setor de TI atuarem de forma proativa nestas iniciativas digitais. Aliás, é o que o CEO e o board esperam deles. Portanto é obrigatório que TI atue integrado com todas as iniciativas digitais da empresa, mas de acordo com o nível de integração com os sistemas corporativos. Centralizar, como falamos anteriormente, criará um gargalo. Deixar sem controle, arma uma bomba relógio.

Mas, como fazer isso? Pesquisas aqui no Brasil mostram que de maneira geral, os CIOs estão antenados com inovação, mas quando perguntados sobre budget reservado para experimentações de novas tecnologias, muitas vezes os números apresentados são pífios. A crise é apontada como culpada. Parte sim, pois existe a tendência de concentrar os esforços na sobrevivência. Mas, e amanhã?

TI deve começar o mais cedo possível a criar um ambiente que propicie a inovação. Isso passa por uma infraestrutura flexível e dinâmica, adoção de princípios e processos ágeis em todas a organização e não apenas no desenvolvimento de sistemas (redesenho da estrutura organizacional da empresa e de TI), mobilidade como cerne das suas aplicações, com apps contextuais e inteligentes, inserir IA e analítica avançada no DNA corporativo e não como um projeto à parte, e principalmente atrair e reter talentos preparados para a transformação digital.

A mudança passa por uma autotransformação. O CIO transformador tem que se transformar primeiro. Deve incorporar a mentalidade de deixar de ser provedor de serviços básicos para advisor de inovação para as áreas de negócio. Existem várias maneiras de fazer isso: hackathons para desenvolver novas ideias e explorar novas experiências na jornada do cliente; criar redes colaborativas de inovação; refazer layout do setor de TI para criar um ambiente mais propício à inovação, etc. Deve se assegurar que a base digital da corporação está pronta ou em caminho de estar pronta, como cloud, processos de entrega contínua, ferramental adequado e assim por diante. Deve liderar a evangelização do repensar a estrutura organizacional, saindo do colapsado modelo hierárquico para um modelo exponencial e cada vez mais self management. Usar as empresas pós Internet como modelo de referência já é uma quebra de paradigma. Atrair talentos digitais, que ainda são estranhos ao seu meio, como User Experience Designers, Data Scientists e Drone Specialists. E claro, ser parceiro em tempo integral dos demais C-level. Não os tratar como seus clientes, mas como parceiros em busca de melhorar a experiência na jornada do cliente que é comum a todos, aquele que está lá fora comprando seus produtos e serviços.

Não é uma tarefa simples. É árdua e talvez muitos que não a queiram ou não conseguem trilhar. Mas, com certeza os que optarem por este caminho e tiverem aptidão para fazer a mudança acontecer, serão recompensados pela maior e relevância profissional e valorização de seu papel na empresa e no mercado.

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